quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

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Um pouco mais sobre Hamilton Naki  


 

A notícia recebida nas correspondências do Brasilmedicina

Hamilton Naki, um sul-africano negro, de 78 anos, morreu no final de maio. A notícia não rendeu manchetes, mas a história dele é uma das mais extraordinárias do século 20. "The Economist" contou-a em seu obituário desta semana. Naki era um grande cirurgião. Foi ele quem retirou do corpo da doadora o coração transplantado para o peito de Louis Washkanky, em dezembro de 1967,na cidade do Cabo, na África do Sul, na primeira operação de transplante cardíaco humano bem-sucedida. É um trabalho delicadíssimo. O coração doado tem de ser retirado e preservado com o máximo cuidado. Naki era talvez o segundo homem mais importante na equipe que fez o primeiro transplante cardíaco da história. Mas não podia aparecer porque era negro no país do apartheid.O cirurgião-chefe do grupo, o branco Christian Barnard, tornou-se uma celebridade instantânea.
Mas Hamilton Naki não podia nem sair nas fotografias da equipe. Quando apareceu numa, por descuido, o hospital informou que era um faxineiro. Naki usava jaleco e máscara, mas jamais estudara medicina ou cirurgia. Tinha largado a escola aos 14 anos. Era jardineiro na Escola de Medicina da Cidade do Cabo. Mas aprendia depressa e era curioso. Tornou-se o faz-tudo na clínica cirúrgica da escola, onde os médicos brancos treinavam as técnicas de transplante em cães e porcos. Começou limpando os chiqueiros. Aprendeu cirurgia assistindo experiências com animais. Tornou-se um cirurgião excepcional, a tal ponto que Barnard requisitou-o para sua equipe. Era uma quebra das leis sul-africanas. Naki, negro, não podia operar pacientes nem tocar no sangue de brancos. Mas o hospital abriu uma exceção para ele. Virou um cirurgião, mas clandestino. Era o melhor, dava aulas aos estudantes brancos, mas ganhava salário de técnico de laboratório, o máximo que o hospital podia pagar a um negro. Vivia num barraco sem luz elétrica nem água corrente, num gueto da periferia. Depois que o apartheid acabou, ganhou uma condecoração e um diploma de médico honorário. Ele nunca reclamou das injustiças que sofreu durante toda a vida.
O obituário de Hamilton Naki - retificação
O racismo continua fazendo vítimas. Ao divulgar uma bela história com um final feliz, retratando a dura vida de um simples negro, jardineiro e auxiliar de laboratório em cirurgia experimental, mas com grande habilidade cirúrgica, imaginava estar divulgando que a justiça tarda, mas chega. Ledo engano. O Sr Hamilton Naki não havia colaborado diretamente no primeiro transplante. Seria contra lei vigente na África do Sul um negro participar de um evento desta importância.
A versão inicial no obituário divulgado do Sr Naki é que ele retirou em 3 de dezembro de 1967 o coração da doadora branca, Sra. Denise Darvall. Esta história era fantástica e até então desconhecida. Foi publicada com grande destaque por importantes jornais, como o inglês The Economist e americano The New York Times (NYT). Revistas médicas de grande impacto científico, como o The British Journal of Medicine (BMJ) e o The Lancet, também noticiaram. A morte do Sr. Naki ocorrida em 29 de maio, ganhava manchete no início de junho. A Internet encarregou-se de reproduzir o tema: era um professor sem formação acadêmica tradicional e exímio cirurgião, até então desconhecido devido ao regime de discriminação racial institucionalizado. 
Em poucas semanas autoridades do Groote Schuur Hospital declararam que o Sr. Naki não participou do transplante nem em outras cirurgias (em seres humanos - brancos? - pergunto), exceto em seu trabalho com animais. As publicações foram vinculadas de junho a outubro em vários órgãos e pela internet (
www.economist.com. /world/ africa &
www.em.wikipedia.org/ wiki). Tanto Chris Logan, autor de uma bibliografia sobre Christiaan Barnard, bem como David M. Dent, reitor da Faculdade de Cape Town desmentiram as informações iniciais do BMJ (www. bmj.bmjjournals ). Em todas estas publicações a habilidade cirúrgica Sr. Naki é lembrada. O Sr. Naki aposentou-se com salário de jardineiro em 1991 e o fim do apartheid veio apenas em 1994, com a eleição de Nelson Mandela. O reconhecimento ao seu trabalho, por entidades estatais Sul-Africanas veio através da Ordem Nacional de Mapungubwe somente em 2002 e finalmente o título de Médico Honorário pela Universidade de Cape Town em 2003.

A história oficial é que o coração da doadora foi removido Marius Barnard, irmão de Christiaan Barnard, e por Terry O´Donavan. O Sr. Naki, por não ser médico e por ser negro, não poderia ter participado da cirurgia. Uma pessoa próxima ao Sr. Naki certa vez perguntou quando ele tinha ouvido falar pela primeira vez sobre o transplante, no que ele respondeu: "... através do radio...". Especula-se que em função de sua idade teria apresentado posteriormente a versão fantasiosa. Ao final a estória tornou-se plausível ao restante do mundo, porém, a mesma estória era tão inverossímil e ridícula no entender da Universidade de Cape Town que não houve preocupação em desmentir, pois não era história, era uma fantasia.
Talvez um dia possamos contar novas histórias em que o preconceito ou racismo sejam vencidos em um mundo melhor. Havia uma grande vontade que um herói africano fosse transformado em um mito, pois o Sr. Naki tinha chegado bem mais longe que a maioria imaginara para aquele simples homem negro. Em pesquisa no Google, utilizando-se das palavras "hamilton naki" em 10 de dezembro, encontrei 10500 referencias e pelo Yahoo encontrei 1970. Cristhiaan Barnard sofria de artrite reumatóide e se aposentou em 1983, dezesseis anos após o seu famoso transplante. Barnard era adversário do apartheid e admirava Sr.Naki, seu fiel e tenaz colaborador. Morreu na ilha de Cyprus, em setembro de 2001, com os mesmos 78 anos vividos pelo Sr. Naki. Em 1993 admitira em entrevista que "se dada oportunidade" o Sr Naki poderia ter sido "melhor cirurgião do que eu". Sabemos que durante uma cirurgia complexa há necessidade de um harmonioso trabalho de equipe. Durante o regime do apartheid qualquer ajuda de um negro, sem educação formal, a um homem branco seria um eterno segredo. Não há dúvida da ajuda prestada pelo Sr. Naki a Barnard, porém a natureza desta ajuda é desconhecida. O estagio e as limitações impostas pela grave doença reumatológica de Barnard também são desconhecidas. 
Ao terminar este novo texto lamento triplamente. É triste que as sombras do racismo façam com que negros e brancos contem a mesma narrativa de modo tão distinto, cada um suspeitando dos motivos do outro. É triste que um homem considerado, por negros e brancos, tão maravilhoso como o Sr.. Naki tenha sido tema de discussão, dando-se mais importância ao que ele não foi. Finalmente a morte do Sr. Naki me trás à lembrança da busca por um mundo melhor, tão bem representada na musica Imagine de John Lennon.
Minhas preces à alma do jardineiro Hamilton Naki, que deixou as flores do hospital, os animais do laboratório e passou a freqüentar, para sempre, o debate entre portadores de diplomas. Luis Fernando Veríssimo no O Globo escreveu que o tempo geralmente destrói os mitos, mas a história às vezes os salva. Salve a estória vivida ou talvez sonhada por Hamilton Naki, este simples grande homem negro. Um herói com certeza, mas quem sabe um dia será um mito, nem que seja em nossos sonhos.
Alfredo Guarischi é Presidente da Comissão de Câncer do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
13 de dezembro de 2005.

Veículo: 
Aliança Cooperativista Nacional - Unimed e Correspondências Brasilmedicina


 

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Olá pessoal,

O amigo que nos enviou este arquivo mencionou um filme sobre Hamilton
e disse que é fantástico emocionante "Quase Deuses". Nunca havia
ouvido falar de Hamilton antes, deve ser uma lição de vida que vale a
pena assistir!

SAUDAÇÕES!