domingo, 31 de agosto de 2008

Pensando Bem !!!

Qual a idade do seu cérebro?

OLA MEUS AMIGOS!

VEJA SE VOCÊ ESTÁ COM AS IDÉIAS EM DIA...

Qual a idade do seu cérebro?

(clik no link abaixo)

Este jogo japonês vai mostrar pra vc se seu cérebro é mais jovem que vc ou mais velho que o resto do seu corpo!

Como jogar:

1. Tecle "start"
2. Aguarde pelo 3, 2, 1.
3. Memorize a posição dos números e clique nos círculos, sempre do menor para o maior número.
Nota: Comece com o ZERO se ele estiver presente.
4. No final do jogo, o computador vai dizer a idade do seu cérebro!!!

Bom Jogo

http://flashfabrica.com/f_learning/brain/brain.html


quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Tolerância???

Martin Niemöller, 1892-1984 Pastor Protestante

"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei . No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para protestar..."

domingo, 24 de agosto de 2008

Pensando bem ...

Os portais do paraíso

Um orgulhoso guerreiro chamado Nobushige foi até Hakuin, e perguntou-lhe: "Se existe um paraíso e um inferno, onde estão?" "Quem é você?" perguntou Hakuin. "Eu sou um samurai!" o guerreiro exclamou. "Você, um guerreiro!" riu-se Hakuin. "Que espécie de governante teria tal guarda? Sua aparência é a de um mendigo!".
Nobushige ficou tão raivoso que começou a desembainhar sua espada, mas Hakuin continuou: "Então você tem uma espada! Sua arma provavelmente está tão cega que não cortará minha cabeça..."
O samurai retirou a espada num gesto rápido e avançou pronto para matar, gritando de ódio. Neste momento Hakuin gritou:
"Acabaram de se abrir os Portais do Inferno!"
Ao ouvir estas palavras, e percebendo a sabedoria do mestre, o samurai embainhou sua espada e fez-lhe uma profunda reverência.
"Acabaram de se abrir os Portais do Paraíso," disse suavemente Hakuin.

O inferno é perder o controle apesar do poder. O paraíso é manter o controle, apesar do medo.

Conto Zen.

domingo, 17 de agosto de 2008

Pensando Bem ...

Estrada do sol

Tom Jobim e Dolores Duran


 

É de manhã

Vem o sol

Mas os pingos da chuva

Que ontem caíram

Ainda estão a brilhar

Ainda estão da dançar

Ao vento alegre

Que me traz esta canção


 

Quero que você

Me dê a mão

Vamos sair por aí

Sem pensar

No que foi que sonhei

Que chorei, que sofri

Pois a nova manhã

Já me fez esquecer

Me dê a mão

Vamos sair pra ver o sol


 

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

domingo, 3 de agosto de 2008

O que é Antropologia?

“Desde a aurora da cultura ocidental... a reflexão sobre o homem, aguilhoado pela interrogação ‘o que é o homem?’, permanece no centro das mais variadas expressões da cultura: mito, literatura, ciência, filosofia, ethos e polícia. Nela emerge com fulgurante evidência essa singularidade própria do homem que é a de ser o interrogador da si mesmo...”
(Lima Vaz).
Genericamente, compreende-se por Antropologia o estudo sobre o homem.Desta forma, o homem é objeto de estudo dos mais diferentes saberes científicos (Antropologia biológica, Antropologia cultural ou social, Antropologia econômica, Antropologia política...), bem como é objeto da interrogação filosófica (Antropologia filosófica).E a reflexão filosófica sobre o homem esta presente em todo o desenvolvimento histórico da filosofia.E esse desenvolvimento histórico encontra-se as mais diversas concepções de homem (concepção grega, concepção cristã, concepções modernas e contemporâneas).Isto significa que para o homem é fundamental o interrogar-se sobre si mesmo, formulando uma idéia que torne compreensível e de sentido à sua existência.
Face à pluralidade e diversidade de saberes sobre o homem, cabe à Antropologia filosófica, levando em consideração as contribuições apresentadas pelas diferentes ciências do homem, bem como os problemas e temas presentes na tradição filosófica, a elaboração de uma idéia unitária de homem que, tendo em vista a constituição ontológica do ser humano, responda ao problema fundamental “o que é homem?”
Dada a complexidade da interrogação filosófica sobre o ser humano, apresentamos alguns elementos fundamentais de uma antropologia filosófica.
Ser de possibilidades
A “experiência originária” do ser humano é a de que ele é responsável pelo seu ser.Isto significa que o ser humano recebe a sua existência como possibilidade.Não nasce plenamente determinado.Sua existência é, fundamentalmente, tarefa de construção de si mesmo, de realização de si mesmo.
Ser de possibilidades, o ser humano é um ser de inevitáveis decisões.E nas decisões vai realizando sua vida e dando sentido à sua existência.Constituindo o seu modo de ser.Este é o sentido fundamental do ser livre, da liberdade.Como ser de possibilidades, o ser humano é, constitutivamente, um ser da liberdade.Em suas decisões livres vai se tornando o que é.
Ser relacional
Um dos constitutivos ontológicos fundamentais do ser humano é o de que o homem é um ser-de-relações.Realiza suas possibilidades de ser nas e pelas relações que o constituem.
As relações fundamentais do ser humano, através das quais vai realizando sua vida, são: relação consigo mesmo, relação com o mundo, relação com os outros e relação com a Transcendência (o absolutamente Outro).
O homem é relação consigo mesmo por ser um ser-consciente.Como ser consciente é ser-sujeito.E a subjetividade é a configuração mais própria do que se é. E a construção da subjetividade se da pelas decisões livres e na e pelas relações que constituem o ser humano.
Ser-no-mundo, como constitutivo do ser humano, desvela a radical contingência e finitude da existência humana.E a historicidade da existência humana.E o lugar no qual vai construindo seu modo de ser e agir.
Relação fundamental é a relação com os outros.O ser humano é subjetividade que se constrói e se define na intersubjetividade.A alteridade (outreidade) desvela que o ser humano só é o que é, em sua liberdade, com outro.Decidir-se para si é decidir-se pelo outro.
Ser finito e contingente, o ser humano é abertura para a Transcendência.Para o absolutamente Outro.Horizonte último e radical que da sentido à existência humano.E o absolutamente Outro se revela no rosto do outro.
Ser pessoa
A unidade fundamental de realização do ser humano, desvelação de sua essência, é o ser pessoa.Ser corpóreo, psíquico, espiritual, ser-de-relações, ser de possibilidades, finito, e contigente, o homem auto-realiza-se como pessoa.Como pessoa, o homem é sujeito, ser consciente e livre.É uma substância espiritual como liberdade pessoal.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Reportagem da Revista Carta Capital - Referência fast-food

Cultura

Referência fast-food
por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

A qualidade de boa parte da informação oferecida pela Wikipédia, a enciclopédia das novas gerações, está abaixo da crítica
Gerações anteriores de estudantes de classe média usaram a Barsa, a Mirador ou a Larousse da família, às vezes até uma biblioteca. Copiavam, claro, mas ao menos tinham de ler o texto para passá-lo ao papel almaço com a caneta.A atual tem uma só referência e gasta menos tempo. Em “Só faço trabalho com Wikipédia”, comunidade do Orkut, uma usuária escreve: “No Google aparecem várias coisas e a gente não sabe qual está certa... Já na Wiki vai diretinho!” Outra responde: “É bom porque não precisa gastar tempo procurando, é só ir lá que o trabalho já está feito. O único trabalho é apertar Ctrl+c e Ctrl+v, mandar imprimir e acabou...” Parece que funciona. Sinal de conivência dos professores, pois é igualmente fácil checar, com qualquer buscador, se o texto foi colado da internet sem roçar a massa cinzenta do aluno. Pensando bem, talvez nem sempre isso seja ruim. Estudar certos verbetes da Wikipédia é pôr em risco tudo o que se aprendeu, se não a sanidade mental. Uma advertência do ministério competente não estaria fora de lugar.O artigo Ditaduras, centenas de vezes editado e revisado desde 2004, é um texto raso, confuso, mal escrito, quase ininteligível: “O termo ditadura tem o significado de oposição à democracia, onde o modelo democrático-liberal deixa de existir e a legitimidade passa a ser questionada, pois as ditaduras modernas são um movimento totalitário...” Arremata, triunfal: “Liberdade democrática é o direito que todos os cidadãos têm de escolher um ou mais representantes que governarão o país tendo em conta os interesses de todos os cidadãos. Essa liberdade é congestionada (sic) numa ditadura”.O verbete Arianos, com histórico similar, é outro feixe de tolices e contradições. Começa já discutível: “Esta página é sobre o povo antigo que colonizou a Índia”. Seguem informações ainda mais duvidosas ou errôneas: “Por volta dos anos 8000 a.C. e 5000 a.C. um povo de língua indo-européia originário de uma zona localizada entre o Mar Negro e Mar Cáspio, nas montanhas do Cáucaso, migrou por toda a Eurásia”. No parágrafo seguinte cai no absurdo: “A maioria da população européia é de origem ariana, daí a denominação da maior parte raça européia. Existem influências pré-arianas como os lusitanos, iberos e os ilusivos (sic) bascos”. Termina com uma tripla barbaridade: “Os arianos são de origem védica, da região conhecida como Tâmil, próximo da região bengali”.O desvairado verbete Nova Ordem Mundial (conspiração) passou por dezenas de revisões e continua a dizer: “Criou-se, através do governo oculto, o mito da ecologia. É dada às crianças a liberdade de ir e vir, ao mesmo tempo em que se combate qualquer tipo de trabalho infantil, e se impede que as escolas usem medidas de controle contra os alunos. Por influência de uma alimentação suspeita de ser à base de hormônios, a média de altura de 1,70 m para homens adultos subiu para 1,80 m. Com isso, qualquer criança de 12 anos acaba sendo maior que seus pais, impossibilitando seu controle.” Um administrador mais sensato propôs eliminá-lo. Foi contestado: “Tem nas outras (línguas), na nossa também deve ter”.Verbetes de (auto)promoção são comuns. Por exemplo, o do medíocre escritor paulista Orlando Paes Filho: “Baseada em uma precisa pesquisa histórica de fatos e pensamentos da Idade Média, a saga de Angus se estenderá (sic) por sete livros e cobrirá doze séculos da nossa (sic) história”. Ou o da marca Close-up: “Com este nome a Unilever mantém um projeto de prevenção e promoção de saúde bucal (...). A marca é um dos grandes destaques do mercado publicitário”. Seguem vínculos para sites de propaganda. Ou Dove: “Uma marca de história e um caso de sucesso no mundo inventivo do marketing de produtos”.Também nos EUA, estudantes se acostumam com informação instantânea a tal ponto que procurar uma ou duas horas por uma boa fonte lhes parece absurdo. Um estudo sobre hábitos de pesquisa no conceituado Wellesley College, de Massachusetts, fez seis questões a alunos de uma turma de computação. Menos de 2% usaram fontes fora da internet para responder a qualquer delas. E a maioria se satisfez com a primeira informação que encontrou, sem conferi-la em outras fontes.“Wiki”, em havaiano, é “rápido”. Rápido demais. O projeto surgiu em 2001. Larry Sanger era, desde o ano anterior, o editor-chefe de um projeto sério, a Nupedia: uma enciclopédia on-line gratuita, de qualidade profissional, escrita e revisada por especialistas com, pelo menos, grau de doutorado.A exigência de rigor exigia tempo e a Free Software Foundation, fornecedora da tecnologia, decidiu que o tradicional processo acadêmico de revisão por pares era burocrático e contrário à filosofia “democrática” do software livre. Iniciou um projeto concorrente, a GNUPedia. A pressão levou Sanger a criar a Wikipédia como um rascunho para que voluntários anônimos propusessem colaborações, antes que uma revisão formal as liberasse para a Nupedia. O novo portal atraiu, como se esperava, os interessados no projeto concorrente, mas a crise das pontocom se agravou. Jimmy Wales, financiador do projeto, cortou o salário de Sanger, que se demitiu. A Nupedia foi abandonada com 24 artigos prontos e 74 em elaboração e a Wikipédia cresceu sem controle. Hoje, inclui 1,6 milhão de artigos em inglês e 4,8 milhões em 249 “línguas”, incluindo dialetos como “napolitano”, “lombardo” e “alemão da Pensilvânia” e pseudo-idiomas artificiais como klingon e volapuque.Em 2004, no site kuro5hin.org, Sanger fez uma crítica muito dura à filha transviada. Explicou ter deixado o projeto por ser muito sério para um hobby em tempo parcial, mas também por não ter paciência para aturar, de graça, a “atmosfera venenosa do projeto”. A começar pelo próprio Jimmy Wales, explicou Sanger, a comunidade da Wikipédia tem uma cultura antiintelectual. Falta respeito para com a perícia e experiência de especialistas e sobra tolerância para com quem os despreza e ridiculariza. Quem tem qualificação, mas pouca paciência, desiste: ao editar artigos sujeitos a qualquer controvérsia, terá de defender exaustivamente suas opiniões contra leigos ineptos, prontos para desfigurar seu trabalho e denunciar suas objeções como “censura”. Se reclamar, receberá um passa-moleque ou um pedido para “cooperar” com colegas incultos e pouco razoáveis. Muitas pessoas capazes, dispostas a cooperar educadamente com parceiros que fossem racionais, bem informados e bem-intencionados, caíram fora. Em junho de 2006, depois de um festival de auto-elogios, calúnias sem provas, insultos, supressão de dados incômodos e sabotagens a biografias de políticos e personalidades, Wales impôs um mínimo de ordem. Fechou alguns dos artigos mais controversos a edições não autorizadas pelos administradores e criou um comitê de arbitragem. Começou-se a assinalar afirmações duvidosas com a nota “Carece de fontes” (confira o verbete Ditaduras cubanas para um exemplo tragicômico). Mas, em nome dos “direitos individuais”, Wales recusou-se a incorporar um controle editorial mais extenso. A idéia é que, por tosco e parcial que seja o artigo inicial, as sucessivas edições, mesmo por usuários não especializados, logo o melhorariam e o aproximariam do estado da arte, à medida que cada um trouxesse o seu pedacinho de informação – tanto que a organização mede a “profundidade” de seus artigos, acredite se quiser, pelo número de alterações feitas. Assim como certos economistas pensam que a soma dos conhecimentos de milhões de participantes de uma bolsa de valores resulta necessariamente na melhor avaliação possível de uma empresa ou mercadoria, que nenhuma análise ou perícia especializada poderia sonhar superar. Não é verdade na economia, como se viu no colapso do índice Nasdaq e de gigantes como a Enron e a Worldcom na virada do milênio. Muito menos no conhecimento. Basta um passeio rápido para se constatar que (ao menos na versão em inglês) um verbete tem mais chances de ser bem-feito e confiável quando trata de um tema tão especializado e insignificante aos olhos do leigo que os especialistas têm permissão de trabalhar em paz.Mas o usuário médio fica satisfeito por encontrar uma resposta rápida. Audiências de executivos e marqueteiros, às quais Robert McHenry, ex-editor-chefe da Encyclopedia Britannica, perguntou se não era importante que a resposta também fosse correta, responderam com olhares de embaraço ou de indiferença.McHenry rastreou a história de um verbete para mostrar como sua dialética encaminha o texto não ao estado da arte, mas sim à mediocridade do usuário médio. Um artigo razoavelmente coerente sobre um dos “pais fundadores” dos EUA foi emendado por palpites e opiniões contraditórias até cair ao nível de uma redação ruim de ensino médio (grau C, na sua avaliação). Seu conselho:– Quem vai à Wikipédia aprender algo ou confirmar um fato está na situação de quem visita um sanitário público. A imundície pode ser evidente e levá-lo a ter cuidado, ou a aparência de limpeza pode lhe dar uma falsa sensação de segurança. O que ele certamente não sabe é quem foi o último a usar a privada.Ou a rabiscar a porta. Em 6 de fevereiro, quem procurasse, na versão em inglês, pelo rei Alfredo, o Grande – um dos mais importantes da Inglaterra medieval – encontraria apenas a frase “he was a gay boy” (ele era um homossexual). Não era o primeiro vandalismo inexplicado. Em outra ocasião, o texto original foi substituído por uma historinha sobre Alfredo como mendigo. Um usuário tentou inserir, várias vezes, um vínculo com um site turístico sem relação com o tema. Em outubro de 2006, Sanger anunciou um novo projeto chamado Citizendium, mais flexível que a Nupedia, mas com mais credibilidade e responsabilidade que a Wikipédia. Os colaboradores terão de se identificar e serão supervisionados por moderadores e especialistas qualificados, cujas credenciais serão conhecidas do público. Ainda não foi lançado, mas seu grau de exigência provavelmente o fará começar menor e crescer mais devagar que a concorrente. Mesmo quando existir, os usuários custarão a descobri-lo. Google e similares hierarquizam as buscas contando a quantidade de vínculos (links) que levam, direta ou indiretamente, a cada página com a palavra ou expressão procurada, além de valorizar páginas que anunciam no buscador e suprimir aquelas que possam lhes trazer problemas. Como os criadores de página tendem a vincular aquilo que encontram primeiro no buscador, sites grandes e conhecidos, seja qual for sua qualidade e originalidade, são perpetuados no alto da lista. É uma formidável barreira de entrada a proteger oligopólios da informação, o pensamento único e a mediocridade. Uma busca sobre algum tema enciclopedizável provavelmente mostrará na primeira página o artigo da Wikipédia e seus clones em sites comerciais que, como Answers.com, brainyencyclopedia.com, cafepress.com e outros, reproduzem seus textos sem nada acrescentar, salvo publicidade.Tratar tal metástase de pseudo-informação medíocre e disforme não será fácil. Não se encontram facilmente acadêmicos dispostos a trabalhar de graça, muito menos tendo de se justificar a usuários semiletrados. Por outro lado, livros especializados são protegidos por copyright de publicação na web. E, mesmo postas na internet, as publicações acadêmicas são, na maioria, fechadas a não assinantes e inacessíveis aos leigos interessados em referências sérias.Talvez governos e fundações culturais devessem financiar projetos de enciclopédias on-line supervisionados pela comunidade acadêmica, se quiserem evitar esse nivelamento por baixo e garantir às novas gerações o acesso a informações não apenas rápidas, mas também corretas e confiáveis – ou, no mínimo, uma razoável pluralidade de fontes de referência.

PLATÃO. A República. Livro VII, capítulo VII.

Sócrates - Agora compara com a seguinte situação o estado de nossa alma relativamente à educação ou à falta desta. Imagina urna caverna subterrânea provida de vasta entrada aberta para a luz e que se estende ao largo de toda a caverna, e uns homens que lá dentro se acham desde meninos, amarrados pelas pernas e pelo pescoço de tal maneira que tenham de permanecer imóveis e olhar tão só para a frente, pois as ligaduras não lhes permitem voltar a cabeça; atrás deles e num plano superior arde um fogo a certa distância, e entre o fogo e os encadeados há um caminho elevado, ao largo do qual faze de conta que tenha sido construído um pequeno muro semelhante a esses tabiques que os titeríteiros colocam entre si e o público para exibir por cima deles as suas maravilhas.
Glauco - Vejo.
Sócrates - E não vês também homens que passam ao longo desse pequeno muro,
carregando toda espécie de objetos, cuja altura ultrapassa a da parede, e estátuas e figuras de animais feitas de pedra, de madeira e outros materiais? Alguns desses carregadores conversam entre si, outros marcham em silêncio.
Glauco - Tu me apresentas urna imagem estranha e estranhos prisioneiros!
Sócrates - Semelhantes a nós. Não te parece que os prisioneiros só tenham
podido ver deles mesmos e daqueles que os rodeiam, as Sombras projetadas pelo fogo sobre a parede fronteira da caverna?
Glauco - Como não, se são obrigados a manter imóveis as cabeças durante toda
a vida?
Sócrates - E dos objetos transportados, não veriam apenas igualmente as sombras?
Glauco - Sim. Sócrates - Ora, se pudessem falar uns com os outros, não julgariam estar
referindo-se às coisas que vêem como se fossem idênticas às coisas que passam?
Glauco - É lógico. Sócrates - E se o cárcere tivesse ressonâncias, quando algum dos passantes
falasse, não pensas que eles julgariam que o que falava era a sombra?
Glauco - Por júpiter, certamente. Sócrates - Para eles, pois, a verdade, literalmente, nada mais seria do que as
sombras dos objetos fabricados.
Glauco - Sem dúvida! Sócrates - Torna a olhar agora e examina o que naturalmente sucederia se os
prisioneiros fossem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. A princípio, se alguém fosse libertado e obrigado a caminhar imediatamente, a mover a cabeça, a caminhar e a dirigir os olhos para a luz, e sentisse dor por causa de tudo isso, e, por causa do brilho fulgurante, não conseguisse olhar para aqueles objetos dos quais até então via as sombras, que pensas que ele diria se alguém falasse com ele? Que antes via coisas de nada e que agora está mais perto da realidade e voltado para aquele que tem mais realidade, vê coisas mais claras? E assim ainda mostrando- lhe cada urn dos objetos que passam, o obrigasse a responder que coisa é, não pensas que hesitaria e julgaria as coisas vistas antes mais verdadeiras do que as que lhe são mostradas agora?
Glauco - Certamente. Sócrates - E se ele fosse obrigado a olhar para a própria luz, seus olhos se
ressentiriam e ele a evitaria, virando-se para trás, para aqueles objetos que pode olhar e julgaria a estes muito mais claros do que aqueles que lhe são mostrados?
Glauco - Isto mesmo. Sócrates - E se o levassem dali pelas asperezas e pela subida íngreme, e não o
deixassem livre antes de tê-lo conduzido à luz do sol, não lhe faria mal e ele não se lamentaria enquanto é conduzido fora e quando chega à luz ou, com os olhos cheios de esplendor, poderia talvez ver algum daqueles objetos que agora são chamados verdadeiros?
Glauco - Certamente não, pelo menos no primeiro momento. Sócrates - Penso que normalmente seria necessário ver os objetos que estão em
cima e depois disso, as imagens dos homens e das coisas nas águas, depois os homens e as coisas mesmas. Depois destes poderá com menor dificuldade observar durante a noite os corpos celestes; assim será mais fácil contemplar de noite a luz dos astros e da lua do que de dia o sol e o seu brilho.
Glauco - Corno não? Sócrates - E por último, penso estaria em condições de ver o sol - nas suas
imagens refletidas na água ou em qualquer outro lugar que não seja o seu, mas o próprio sol em seu domínio e tal qual é em si mesmo. Glauco - Evidentemente.

PLATÃO. A República. Livro VII, capítulo VII. In: MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Vol. 1. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 1981, p. 65-67.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A palavra Filosofia e o que é Filosofia

A origem da Filosofia

A palavra Filosofia

A palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia. Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio.

Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. Filósofo: o que ama a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber.

Assim, filosofia indica um estado de espírito, o da pessoa que ama, isto é, deseja o conhecimento, o estima, o procura e o respeita.

Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos (que viveu no século V antes de Cristo) a invenção da palavra filosofia. Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos.

Dizia Pitágoras que três tipos de pessoas compareciam aos jogos olímpicos (a festa mais importante da Grécia): as que iam para comerciar durante os jogos, ali estando apenas para servir aos seus próprios interesses e sem preocupação com as disputas e os torneios; as que iam para competir, isto é, os atletas e artistas (pois, durante os jogos também havia competições artísticas: dança, poesia, música, teatro); e as que iam para contemplar os jogos e torneios, para avaliar o desempenho e julgar o valor dos que ali se apresentavam. Esse terceiro tipo de pessoa, dizia Pitágoras, é como o filósofo.

Com isso, Pitágoras queria dizer que o filósofo não é movido por interesses comerciais - não coloca o saber como propriedade sua, como uma coisa para ser comprada e vendida no mercado; também não é movido pelo desejo de competir - não faz das idéias e dos conhecimentos uma habilidade para vencer competidores ou "atletas intelectuais"; mas é movido pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar as coisas, as ações, a vida: em resumo, pelo desejo de saber. A verdade não pertence a ninguém, ela é o que buscamos e que está diante de nós para ser contemplada e vista, se tivermos olhos (do espírito) para vê-la.


 

[ O que é filosofia]

[ ... } O problema crucial é o seguinte: a filosofia à verdade total, que o mundo não quer. A Filosofia é portanto, perturbadora da paz

E a verdade o que será? A filosofia busca a verdade nas múltiplas significações do ser verdadeiro seguindo os modos do abrangente. Busca, mas não possui o significado e substância da verdade única. Para nós, a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito.

No mundo, a verdade está em conflito perpétuo. A filosofia leva esse conflito ao extremo, porém o despe de violência. Em suas relações com tudo quanto existe, o filósofo vê a verdade revelar-se aos seus olhos, graças ao intercâmbio com outros pensadores e ao processo que o torna transparente a si mesmo.

Quem se dedica à filosofia põe-se a procura do homem, escuta o que ele diz, observa o que ele faz e se interessa por sua palavra e ação, desejoso de partilhar, com seus concidadãos, do destino comum da humanidade.

Eis por que a filosofia não se transforma em credo. Está em continua pugna {luta} consigo mesma.

JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico.

São Paulo, Cultrix, 1971. p.138

domingo, 22 de junho de 2008

A CONSTRUÇÃO DOS MITOS NO PASSADO E NO PRESENTE

Desde a Antiguidade, os diferentes povos e culturas buscavam explicar os fenômenos da natureza e dar um sentido à própria vida. Esse desejo do ser humano de tentar explicar e entender a origem e o fim das coisas existentes nesse primeiro momento da história foi denominado de MITO.

No passado, no contexto da cultura ocidental, os gregos foram os que mais se destacaram no campo da mitologia, além de suas influências culturais em outras áreas do conhecimento. Na cultura ocidental o mito tornou-se, assim, o primeiro instrumento que desvendou os mistérios do mundo e traduziu os primeiros entendimentos do ser humano sobre a realidade. O mito, num primeiro conceito original, consiste numa narrativa fantasiosa, fantástica sobre a realidade, sobre o mundo. A palavra mito, no sentido etimológico, provém do grego e quer dizer contar, narrar, falar, anunciar, conversar. O mito, então, caracteriza-se, principalmente, por esse discurso imaginário e fictício de buscar explicações sobre os aspectos essenciais da realidade, como por exemplo: a origem do mundo, o funcionamento da natureza, as origens do ser humano e dos seus valores. O mito passava de geração a geração através da narrativa de uma pessoa, urna autoridade dentro da comunidade que inspirava confiança e fidelidade.

A simbologia dos mitos


A mitologia como o conjunto de mi- tos, de lendas e crenças integrantes da cultura de um povo utilizava elementos simbólicos e sobrenaturais para explicar a realidade. Os apelos ao mistério, ao sobrenatural, ao sagrado, à magia constituem elementos centrais da mitologia. Por exemplo, na mitologia grega, além dos deuses imortais (Zeus, Hera, Ares, Atena etc.), cultuavam-se heróis ou semideuses, que eram filhos de um deus com urna pessoa mortal. Os gregos criaram numerosas histórias baseadas numa rica mitologia. Para os gregos, os deuses presidiram a origem do universo e geraram semideuses, heróis e monstros. Os grandes deuses habitavam o monte Olimpo e destacam-se os seguintes: Héstia (deusa do lar), Crono e Réia (os primeiros deuses), Hades (deus do inferno), Deméter (deusa da agricultura), Zeus (deus do céu e senhor do Olimpo), Hera (esposa de Zeus), Posêidon (deus dos mares), Ares (deus da guerra), Atena (deusa da inteligência), Afrodite (deusa do amor e da beleza), Dionísio (deus do prazer; da aventura, do vinho) , Apoio (deus do sol, das artes e da razão), Artemis (deusa da lua, da caça e da fecundidade animal), Hefestos (deus do fogo, patrono dos metalúrgicos) , Hermes (deus do comércio e das comunicações).
A mitologia grega surgiu para representar algumas funções sociais: a função de explicar e tranqüilizar as pessoas di- ante dos mistérios da natureza e a função de regular e ordenar a ação humana. A explicação mítica, todavia, não se justifica, nem se fundamenta, nem se presta ao questionamento. O pensamento mítico requer a adesão e a aceitação das pessoas sem qualquer critica ou correção. Não há discussão sobre os mitos, pois eles são aceitos pela cultura como a própria visão de mundo.

Apelo à reflexão

Na atualidade, muitas questões sobre os fenômenos da natureza física e humana são explicados

através do conhecimento filosófico e científico. Por exemplo: a pergunta sobre a origem do universo. A ciência, hoje, através das pesquisas explica e mostra na experiência a resposta para este problema. Todavia, os avanços na área da filosofia e do próprio conhecimento científico não inibiram os mitos.

O mito continua a ser uma expressão viva com suas funções sociais semelhantes à mitologia grega. Hoje, ainda estão presentes questões sobre a origem da vida e a vida após a morte. O mito, hoje, aparece também através dos meios de comunicação social. Por exemplo: quando a mídia apresenta modelos de moda, corpo, comportamento etc. Esses símbolos representam referenciais imaginários para os vários tipos de desejos, de anseios, emoção: o sucesso, o poder, o sexo, o prazer, a ganância... Em diversos filmes e romances da televisão criam-se mitos de heróis que representam a superioridade racial, tecnológica e financeira. Citam-se, como exemplo, vários filmes americanos em que o personagem do filme manifesta lições morais e aparece como semideus, imortal.

Observa-se que no presente, o ser humano continua envolto por muitos mitos. O pensamento mítico continua construindo explicações imaginárias, fantásticas da realidade. Propõem-se diante disso um apelo ao exercício da reflexão sobre si mesmo e sobre a realidade. Analisar e refletir são duas habilidades do ser humano. Torna-se uma questão de hábito, de costume. Basta um pouco de admiração diante das coisas e não aceitar tudo como evidente, óbvio, claro. A reflexão pode se tornar urna alternativa eficaz para detectar e decifrar os mitos da atualidade.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

El Mito de la Caverna

Com a obrigatoriedade das aulas de filosofia no ensino médio, cursinhos correm contra o tempo para preparar os candidatos

Tem Platão nas apostilas

Com a obrigatoriedade das aulas de filosofia no ensino médio, cursinhos correm contra o tempo para preparar os candidatos (Marta Reis)
RIO - Platão ganhou as apostilas dos cursinhos pré-vestibulares. Com a confirmação da obrigatoriedade da filosofia no currículo do ensino médio na semana passada, por uma lei nacional (que adicionou também a sociologia aos programas), cada vez mais universidades devem incluir a disciplina nas provas dos próximos anos.
O curso Qi montou um programa para o segundo semestre, com leitura e discussão de textos filosóficos voltados para o exame da UFRJ, que incluiu uma prova não-específica da matéria, no ano passado, para Direito, História, Filosofia, Música e Ciências Sociais. Além da federal ter adotado a disciplina em seu vestibular, várias escolas já têm aulas do tema, pois a Lei de Diretrizes e Bases da Educação previa, há algum tempo, filosofia e sociologia no ensino médio.
A UFF também promete uma prova específica da disciplina para os candidatos ao curso de filosofia neste ano e questões nas provas de história, geografia e língua portuguesa em todas as carreiras. Na Uerj, as questões de filosofia estão diluídas nos exames de qualificação.
- A idéia é manter a receita do ano passado que deu certo. Espero uma prova talvez um pouco mais complicada neste concurso, mas acredito que a UFRJ pegue leve nesses primeiros vestibulares - afirma Ricardo Camelier, diretor do Qi.
Espero uma prova talvez um pouco mais complicada neste concurso, mas acredito que a UFRJ pegue leve nesses primeiros vestibulares (R. Camelier, do Qi)
No curso Miguel Couto, a preparação dos alunos também vai se intensificar nos próximos meses com aulas aos domingos. Segundo Hélcio Gomes, coordenador pedagógico, os professores privilegiam a linha filosófica cartesiana -- que inclui textos como "Discurso do método", de Descartes - que é a mesma do Instituto de Filosofia da UFRJ.
- Mas não podemos deixar de trabalhar autores como Platão, Kant e Hegel. Nas aulas, o professor lê os textos, faz a apreciação dos termos mais complicados, explica os principais pontos e, depois, formula questões para os candidatos resolverem. É a melhor forma de prepará-los para uma prova que não é "conteudista" , como é o caso da UFRJ e deve ser o da UFF - esclarece Gomes.
Já no pH, os vestibulandos têm uma aula de duas horas da disciplina por semana.
- Eu também preparei uma apostila com uma seleção de textos que considero importantes, como "Meditações metafísicas", de Descartes, e "Alegoria da caverna", de Platão. A partir da leitura, os candidatos exercitam a interpretação - diz Rafael Barreto, professor de filosofia do pH.
Barreto aposta que a UFRJ deve cobrar neste vestibular alguns temas da filosofia como estética, presentes no edital do último concurso, mas que ficaram fora do exame.
O conteúdo dos exames:
UFRJ: A universidade federal adotou a prova de filosofia não-específica no processo seletivo passado apenas para os candidatos aos cursos do grupo 6: Música, Ciências Sociais, Direito, Filosofia e História.
O QUE ESTUDAR NESTE ANO: A comissão de vestibular indica que os alunos devem estudar os seguintes pontos: conceituação de filosofia; noções de lógica; o problema do conhecimento na filosofia (racionalismo, empirismo e ceticismo); estética; filosofia prática (ética, a questão do bem e do mal) e política (estado, sociedade e poder).
UFF: A federal fluminense vai incluir uma prova específica para aqueles que tentam uma vaga no curso de Filosofia. Na prova de múltipla escolha da primeira etapa, as questões de filosofia estarão diluídas nas provas de história, geografia e língua portuguesa para todas as carreiras.
O QUE ESTUDAR NESTE ANO: Os candidatos devem estar preparados para perguntas sobre filosofia greco-romana; filosofia da Europa medieval; filosofia da época moderna; racionalismo e empirismo; iluminismo; Kant e a crise da consciência moderna.
O Globo, 9 jun. 2008.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Hegel: "O senhor e o escravo"

O Senhor e o Escravo
Buscar a morte do outro implica em arriscar a própria vida. Por conseguinte, a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. Não podem evitar essa luta, pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si, sua certeza de existir para si; cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. Só assim é que alguém se assegura de que a natureza da consciência de si não é o ser puro, não é a forma imediata de sua manifestação, não é sua imersão no oceano da vida. Essa luta prova que nada existe na consciência que não seja perecível para ela, prova que ela, portanto, não é senão puro ser para-si. O indivíduo que não arriscou sua vida pode certametne ser reconhecido como pessoa, mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente. (¹)
O senhor é a consciência que é por si mesma, mas essa consciência, aqui, está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por uma outra consciência (²), notadamente por uma consciência cuja natureza implica no fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral. O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal, objeto do apetite, e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa. Uma vez que o senhor (a), enquanto conceito da consciência de si, é relação imediata do ser para-si, mas (b) é simultaneamente mediação, em outras palavras, um ser para-si que só o é por meio do outro, ele se relaciona (a) imediatamente com os dois e (b) imediatamente com cada um por intermédio do outro. O senhor tem, com o escravo, uma relação mediata em virtude da existência independente, pois é precisamente a ela que o escravo está preso, ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta, o que o levou a mostrar-se dependente, posto que possuía sua independência numa coisa externa. Quanto ao senhor, ele é a potência que domina esse ser externo, pois provou na luta que o considera como puramente negativo; uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo, o senhor também o domina. Desse modo o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo; este último, enquanto consciência de si, relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa; mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente e o escravo não pode, por meio de sua negação, chegar a suprimi-la; ele só faz trabalhar.
Em compensação, para o senhor, graças a essa mediação, a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo; aquilo que o apetite não conseguiu, ele o consegue; domina a coisa e se satisfaz na fruição. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa; mas o senhor, ao colocar o escravo contra ela e si próprio, só entra em contato com o aspecto dependente da coisa, fruindo-a puramente; deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha. (³)
(¹) Este difícil texto de é característico do método hegeliano. Ele inspirou amplamente as análises de nossos contemporâneos sobre as relações do eu com o outro. Na luta de duas consciências, Hegel examina simultaneamente a relação de dois "eu" e a relação de cada eu com sua própria vida. O "senhor", aquele que é vitorioso no combate, aceitou arriscar a vida. Por conseguinte, ele é mais do que ela, por sua coragem colocou-se acima dos objetos comuns da necessidade e da existência empírica. O vencido, aquele que se rendeu, tem medo de perder a vida. Por conseguinte, ele é, de início, escravo da vida e de seus objetos empíricos. Torna-se tembém escravo do senhor que o conserva (servus = conservado) a fim de ler em seu olhar temeroso e submisso o reflexo de sua vitória, a fim de se fazer reconhecer como consciência.
(²) Hegel quer dizer que o senhor não é senhor "em-si", mas por meio de uma mediação, isto é, uma relação. O senhor se define por sua relação com o escravo (e por sua relação com os objetos que depende, ela própria, da relação com o escravo). No ponto de partida, o senhor domina os objetos da necessidade, posto que no campo de batalha ele se mostrou corajoso, superior à sua vida, portanto, aos objetos das necessidades. Secundariamente, o senhor domina os objetos por mediação do escravo que trabalha, isto é, que transforma os objetos materiais em objetos de consumo e de fruição para o senhor.
(³) Graças ao trabalho do escravo, a relação do senhor com a coisa é uma relação de simples gozo que equivale à negação da coisa. Pensamos nos versos de Valéry:
Como o fruto se funde em fruição
Como em delícias ele muda sua ausência
Numa boca em que sua forma se extingue.
Concepção Dialética da História da Filosofia
Em suas lições sobre a história da filosofia, Hegel assinalava que a noção de História da Filosofia "envolve uma contradição interna". Com efeito, "a filosofia quer conhecer o imperecível, o eterno, seu fim é a verdade. Mas a história conta o que foi numa época e que desapareceu em outra, substituído por outra coisa". Se a verdade é eterna, "ela não penetra na esfera do que passa e não tem história". Entretanto, a filosofia encontra-se toda nos sistemas dos filósofos. A idéia geral de filosofia permanece abstrata se não se confunde com os diversos sistemas dos filósofos no decurso da história, assim como a noção geral de fruto só se explicita quando efetivamente se trata de "cerejas, ameixas ou uvas". Na realidade, cada filosofia corresponde a um momento da história, a uma etapa na conquista do espírito absoluto. Cada filosofia é "o espírito da época existente como espírito que se pensa". Ela surge "no devido momento, nenhuma ultrapassou seu tempo" (¹). As filosofias sucessivas não se refutam, mas as novas filosofias mostram as anteriores como verdades parciais passíveis de serem integradas numa síntese mais ampla que se elabora com o tempo. A história da filosofia oferece momentos privilegiados ou, como diz Hegel, "nós" em que vêm se reconciliar dialeticamente os contraditórios. A filosofia de Platão, por exemplo, é a síntese do imóvel ser parmenídico com a mobilidade heracliteana.
Nesse sentido, citaremos um excerto das lições sobre a História da Filosofia:
A razão é una e essa racionalidade una, um sistema e, por isso, a evolução das determinações do pensamento é igualmente racional. Os princípios gerais surgem segundo a necessidade da noção fundamental. A posição dos precedentes é determinada pelo que se segue. O princípio de uma filosofia passa, na seguinte, para a categoria de um momento. Não se refuta uma filosofia, apenas sua posição é que é refutada. As folhas, de início, são o modo de existência mais elevado da planta, depois é o botão e o cálice que, em seguida, se transformam em envoltório a serviço do fruto; é assim que o primeiro elemento é colocado numa categoria inferior pelo seguinte.
As filosofias são as formas do Uno. Um estudo mais avançado mostrar-nos-á como progridem seus princípios, de maneira que o seguinte é uma nova determinação do precedente...
O estoicismo faz do pensamento um princípio, mas o epicurismo proclama vedadeiro o princípio diretamente oposto: o sentimento, o prazer para um, portanto, é o geral e para outro o particular, o individual: para o primeiro, é o homem pensante; para o segundo, o homem sensível. Somente sua reunião constitui a totalidade da noção e o homem, aliás, compõe-se dos dois elementos, do geral e do particular, do pensamento e da sensibilidade. Sua união é a verdade. Mas ambas se manifestam, uma após outra, opondo-se. O ceticismo é o princípio negativo que se eleva contra os dois precedentes; ele afasta o caráter exclusivo de um e outro, mas engana-se quando acredita os ter eliminado, pois ambos são necessários.
Desse modo, a essência da história da filosofia consiste em que princípios exclusivos transformam-se em momentos, em elementos concretos e se conservam, por assim dizer, num nó; o princípio das concepções subseqüentes é superior ou, o que dá no mesmo, mais profundo... A história de Platão não é um ecletismo, mas uma reunião das filosofias precedentes que então formam um todo vivo, uma união em uma viva unidade do pensamento...
É importante, antes de tudo, conhecer os princípios dos sistemas filosóficos e em seguida reconhecer cada um deles como necessário; sendo necessário, ele se apresenta em sua época como superior. Se se for mais adiante, a determinação precedente torna-se apenas um ingrediente da nova, ela é assumida sem ser rejeitada. Desse modo, todos os princípios são conservados. Assim, o Uno, a unidade, é o fundamento de tudo; aquilo que se desenvolve na razão progride na unidade dessa razão... Conhecer verdadeiramente um sistema é tê-lo justificado em-si. Limitar-se a refutar uma filosofia é não compreendê-la; é preciso ver a verdade que ela contém. Nada mais fácil do que criticar, do que ver em alguma parte o caráter negativo; isto é sobretudo gosto característico dos jovens, mas se só se vê a negação, ignora-se o conteúdo que, ele sim, é afirmativo; supera-se-o sem que se encontre no interior. A dificuldade consiste em ver o que os sistemas filosóficos contêm de verdadeiro; só quando são justificados em si próprios é que se pode falar de seu limites, de suas deficiências.
(¹) Encontramos essa idéia em Marx, num contexto materialista: "Os filósofos não brotam da terra como cogumelos, eles são os frutos de seu tempo, de seu povo, cujas forças mais sutis e mais ocultas se traduzem em idéias filosóficas. O mesmo espírito fabrica as teorias filosóficas na mente dos filósofos e constrói as estradas de ferro com as mãos dos operários. A filosofia não é exterior ao mundo".

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dia histórico: sancionada a lei que torna obrigatória as disciplinas de Filosofia e Sociologia na Educação.

Dia histórico: sancionada a lei que torna obrigatória as disciplinas de Filosofia e Sociologia na Educação.
O presidente da República, em exercício, José Alencar, sanciona nesta segunda-feira, 2/06, às 16h00, no Salão de Atos do Palácio do Planalto, com a presença do Ministro da Educação Fernando Haddad e de grande público presente, a lei que torna obrigatório o ensino das disciplinas de Filosofia e Sociologia nas escolas de ensino médio, públicas e privadas. O Projeto de Lei nº. 1641/2003, do Dep. Ribamar Alves (PSB/MA), foi aprovado primeiro na Câmara dos Deputados, e no dia 8 de maio deste ano, no Senado.
A obrigatoriedade do ensino da Filosofia e Sociologia no currículo do ensino médio levaram o Congresso Nacional alterar o artigo 36 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Lei nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. A obrigatoriedade, segundo a
lei, entra em vigor a partir da sua publicação no Diário Oficial da União.
Com a concretização de muitas lutas e discussões, nesse dia em que é sancionada a lei pela obrigatoriedade no Ensino Médio, temos um resgate e uma justiça sendo feita. Pois oportunizar que os jovens reflitam sobre si mesmos e sobre a sociedade é fortificar a democracia - “Quanto mais esclarecidos os indivíduos mais esclarecida a sociedade”, afirmava Adorno.
A luta continua e, nas palavras do Dep. Ribamar Alves, em entrevista ao
Jornal Corujinha (pág. 3): “Assumi o compromisso de apresentar um PL que virá abrir a discussão e mobilização por todo país para que o Ensino da Filosofia aconteça em todos os níveis escolares e em todas as escolas, ou seja, tornar o ensino de Filosofia obrigatório já no Ensino Fundamental.”.
Resolução – A inclusão de Filosofia e Sociologia no currículo do ensino médio não é novidade para os sistemas estaduais. Em 21 de agosto de 2007, a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) publicou uma resolução orientando as redes estaduais de educação, que são responsáveis pelo ensino médio, sobre a oferta das duas disciplinas. A Resolução nº 4/2006, da Câmara de Educação Básica/CNE, ofereceu aos sistemas duas alternativas de inclusão: nas escolas que adotam organização curricular flexível, não estruturada por disciplinas, os conteúdos devem ser tratados de forma interdisciplinar e contextualizada; já para as escolas que adotam currículo estruturado por disciplina, devem ser incluídas sociologia e filosofia. A
resolução também deu aos sistemas de ensino um ano de prazo para as providências necessárias. Esse prazo termina em 21 de agosto próximo.

Dia histórico: sancionada a lei que torna obrigatória as disciplinas de Filosofia e Sociologia na Educação

Altera o art. 36 da Lei nº 9.394, de 20 de
dezembro de 1996, que estabelece as
diretrizes e bases da educação nacional,
para incluir a Filosofia e a Sociologia
como disciplinas obrigatórias nos
currículos do ensino médio.
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º O art. 36 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar
com as seguintes alterações:
“Art. 36. .........................................................................................
........................................................................................................
IV – serão incluídas a Filosofia e a Sociologia como disciplinas
obrigatórias em todas as séries do ensino médio.
§ 1º .................................................................................................
........................................................................................................
III – (revogado).
.............................................................................................” (NR)
Art. 2º Fica revogado o inciso III do § 1º do art. 36 da Lei nº 9.394, de 20 de
dezembro de 1996.
Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Senado Federal, em de maio de 2008.
Senador Garibaldi Alves Filho
Presidente do Senado Federal
gab/plc08-004

domingo, 1 de junho de 2008

Filosofia: vida e trabalho

O que a filosofia tem a ver com seu trabalho?
Esse texto, nascido de uma questão colocada em sala de aula, tem como objetivos:
1) Relacionar e discutir co-relações da filosofia com vida pessoal e profissional.
2) Explicar como a filosofia influência a vida nas organizações humanas hoje, a partir das exigências que são feitas aos trabalhadores.
Filha da filosofia, a ética renasceu no vocabulário da mídia e ganhou contornos de modernidade. Nesta medida, é atualíssimo discutir (e praticar?) os princípios éticos nas relações pessoais, profissionais e nos negócios. Nesse contexto, algumas expressões confundem-se: cidadania, ética, transparência, responsabilidade social e sustentabilidade.
Filosofia, aqui é abordada a partir de uma definição de Platão (427-347 a.C): "A filosofia começa com a perplexidade", o que, segundo nossa percepção é muito apropriado para os dias de hoje e "filosofia" é o uso do saber em proveito do homem".
Ética aqui é abordada como área da filosofia que estuda o comportamento humano. A palavra ética origina-se do termo grego ethos, que significa "modo de ser", "caráter", "costume", "comportamento". De fato, a ética é o estudo desses aspectos do ser humano: por um lado, procurando descobrir o que está por trás do nosso modo de ser e de agir. Por outro, procurando estabelecer as maneiras mais convenientes de sermos e agirmos. Assim, pode-se dizer que a ética trata do que é "bom" e do que é "mau" para nós.
Bom e mau, ou melhor, bem e mal, entretanto, são valores que não apresentam, para o ser humano, um caráter absoluto. Ao longo dos tempos, nas mais diversas civilizações, várias interpretações serão dadas a essas duas noções. A ética acompanha esse desenvolvimento histórico, para que isso sirva de base para uma reflexão sobre como ser ético no tempo presente.
O que chama a atenção é a fundamentação dos por quês, iniciada há mais de três mil anos com Confúcio, Lao Tzé e Sun Tzu (se considerarmos a filosofia oriental) ou 2.500 anos, se considerarmos a filosofia ocidental, iniciada com Sócrates (470-399 a.C), cujo pensamento nos chegou através de Platão. Esse período de 500 anos, historicamente é curto, em termos de evolução.
As ciências hoje conhecidas e praticadas têm sua origem na filosofia. No princípio, não havia separação formal e algumas mentes privilegiadas começaram a perceber o universo, o ar, a água, o fogo, a terra, os átomos, a energia, a mente, o corpo e o coração, a vida, os homens, as mulheres, a vida em sociedade, as crenças, a organização social, as práticas e os costumes da vida em sociedade.
Cabe perguntar: o que aconteceu que fica em nós a percepção de que aparentemente o mundo perdeu o rumo? Uma resposta simples, mas possível: deixamos de pensar.
Segundo o pensador peregrino contemporâneo Bstam-dzin-rgya-mtsho (1935), mundialmente conhecido como Dalai Lama XIV, "Apesar de todo o progresso material ocorrido no século passado e no atual, ainda experimentamos sofrimento, especialmente no que se refere ao bem-estar mental. Na verdade, o complexo meio de vida criado pela modernização e globalização está gerando novos problemas e novas causas de perturbação mental".
Esse mesmo pensador refere-se aos ensinamentos sobre as quatro Nobres Verdades, descritas por Xaquiamuni Buda (cerca do séc.VII a.C.):
1a - A vida envolve sofrimento.
2a - O sofrimento é causado, não acontece por acaso.
3a - Podemos descobrir a causa e romper a cadeia causal para impedir o sofrimento.
4a - Devemos praticar para alcançar o fim explicado na terceira verdade.
Nesse contexto explica-se o sofrimento como: "o apego que leva ao renascimento, conectado à alegria e à ganância, continuamente encontrando deleite e prazer ora aqui ora ali. É o apego por satisfações sensuais, apego à existência e apego à não-existência".
Finalmente, "para podermos verdadeiramente entender a cessação do sofrimento, precisamos primeiro reconhecer ao que origina nossas aflições mentais e emocionais e, então, aprender a discernir que estados mentais agem como antídotos diretos sobre elas".
Antonio Carlos Olivieri, escritor e jornalista escreveu que para Aristóteles (384-322 a.C), todas as atividades humanas aspiram a algum bem, dentre os quais o maior é a felicidade. Segundo esse filósofo, entretanto, a felicidade não consiste em prazeres ou riquezas. Aristóteles considerava que o pensar é aquilo que mais caracteriza o homem, concluindo daí que a felicidade consiste numa atividade da alma que esteja de acordo com a razão.
Depois disso, vem os filósofos hedonistas (do grego "hedoné" = "prazer"), segundo os quais, que acreditavam que o bem se encontra no prazer. No entanto, convém esclarecer que o principal representante do hedonismo grego, no século três a.C., o filósofo Epicuro, considerava que os prazeres do corpo são causa de ansiedade e sofrimento. Segundo ele, para a alma permanecer imperturbável, é preciso desprezar os prazeres materiais privilegiando-se os prazeres espirituais.
Genericamente, pode-se dizer que a nossa civilização contemporânea é hedonista, pois identifica a felicidade com o prazer, obtido principalmente pela aquisição de bens de consumo: ter uma bela casa, carro, boas roupas, boa comida, múltiplas experiências sexuais sem compromisso etc. E, também, na dificuldade de suportar qualquer desconforto: doenças, problemas nos relacionamentos pessoais, o fato de a morte ser inevitável etc.
Aparentemente, os apressados e os incautos podem concluir que nos encontramos "num beco sem saída". Não é bem assim. Não há nada de errado na aparente contradição dentre mente e corpo. A dinâmica do mundo material é resultante de forças e energias contrárias, assim, o desejo básico por felicidade, paz e prazer, e o desejo igualmente básico de superar a dor e sofrimento existem naturalmente em todos nós. Tendo em mente que nos realizamos através do trabalho, cada um de nós quer, pode, tem como objetivo e direito levar uma vida feliz e tranqüila e viver num mundo feliz.
Precisamos nos relacionar com as contradições e aprendermos a utilizá-las positiva e construtivamente, não nascemos sabendo isso. A filosofia, desde que incorporada ao patrimônio humano, ao longo desses 3 mil anos está nos ajudando a aprender.
Para concluir, cito uma passagem da obra, "Iluminando o Caminho" do Dalai Lama, ed. Fundamento: "É importante compreender com clareza e convencer-se de que emoções como ódio e ganância são forças interiores destrutivas que podemos reduzir e superar. E que pontos de vista basicamente saudáveis e éticos evitam o surgimento de muitas emoções e pensamentos negativos".
Num contexto amplo, todas as partes do mundo efetivamente tornaram-se parte de nós mesmos.

domingo, 25 de maio de 2008

Pensando Bem...

Quando você pensa em liberdade, pensa em ser livre de ou em ser livre para?

terça-feira, 20 de maio de 2008

POEMA DE PARMÊNIDES VIII .... final?

VIII

Ainda uma só palavra resta do caminho:
Que é; sobre este há bem muitos sinais:
Que sendo ingênito também é imperecível.
Solitário, íntegro como intrépido e sem meta;
Nem nunca era nem será, pois é todo junto agora,
Uno, continuo; pois que origem sua buscarias?
Por onde, de onde se distenderia? Não permitirei que tu
Digas nem penses que do não ente: pois não é dizível nem
pensável que seja enquanto não é. E que necessidade o teria
impelido, depois ou antes, a desabrochar começando do nada?
Assim, ou é necessário existir totalmente ou de modo algum.
Tampouco do ente, nunca força de fé permitirá
surgir algo para além do mesmo; por isso Justiça nem
deixa vir a ser nem sucumbir, afrouxando amarras,
mas mantém; a decisão sobre tais está nisto:
é ou não é. Mas já está decidido, por necessidade,
qual deixar como impensável e inominado – pois é um
caminho não verdadeiro – e qual há de ser, por existir e ser verídico.
Como existiria depois, o que é? Como teria surgido?
Pois se surgiu, não é, nem se há de ser algum dia.
Assim origem se apaga como o insondável ocaso.
Nem é divisível, pois é todo equivalente:
Nem algo maior lá que o impeça de ser contínuo,
Nem algo menor, mas é todo pleno do que é.
Por isso é todo contínuo: pois ente a ente acerca
Além disso, imóvel, nos limites de grandes amarras
Fica sem partida, sem parada, já que origem e ocaso
Muito longe se extraviaram, rechaçou-os fé verdadeira.
O mesmo no mesmo ficando, sobre si mesmo pousando
E assim, aí fica firme, pois poderosa Necessidade
Mantém nas amarras do limite, cercando-o por todos os lados,
Porque é norma o ente não ser inacabado.
Pois é não carente, não sendo, careceria de tudo.
O mesmo é o que é a pensar e o pensamento de que é.
Pois sem o ente, no qual está apalavrado,
não encontrarás o pensar. Pois nenhum outro nem é
nem será além do ente, pois que Partida já o prendeu
para ser todo imóvel; assim será nome, tudo
quanto os mortais instituíram persuadidos de ser verdadeiro,
surgir e também sucumbir, ser e também não,
e alterar de lugar e variar pela superfície aparente

Momento cult ... POEMA DE PARMÊNIDES, VI e VII

VI

Precisa que o dizer o pensar o que é seja; pois há ser,
Mas nada não há; isto eu te exorto a indicar.
Pois [ ____ ] por esta primeira via de investigação,
Em seguida por aquela em que mortais que nada sabem
forjam, bicéfalos; pois despreparo guia em frente
em seus peitos um espírito errante; eles são levados,
tão surdos como cegos, estupefatos, hordas indecisas,
para os quais o existir e não ser valem o mesmo
e não o mesmo, de todos o caminho é de ida e volta.

VII

Pois isto não, nunca hás de domar não entes a serem;
Mas o que pensas, separa desta via de investigação;
Nem o hábito multitudinário ao longo desta via te force
A vagar o olhar sem escopo, e ressoar ouvido
E língua, mas discerne pela palavra a litigiosa contenda
Por mim proferida.

Momento cult ... POEMA DE PARMÊNIDES (I-VIII) - III , IV, V

III

...pois o mesmo é a pensar e também ser.
IV

Vê como o ausente é, no entanto, presente firmemente em pensamento;
pois este não apartará o próprio ente do manter-se ente
nem se dispersando de toda forma todo pelo
mundo, nem se concentrando.
V

O Encontro, porém, é para mim,
de onde começarei; pois lá mesmo chegarei ainda outra vez.

Momento cult ... POEMA DE PARMÊNIDES (I-VIII) - ACERCA DA NATUREZA II

II

Pois bem, agora vou eu falar, e tu, prestes atenção ouvindo a [palavra
acerca das únicas vias de questionamento que são a pensar:
uma, para o que é e, como tal, não é para não ser,
é o caminho de Persuasão — pois segue pela Verdade —,
outra, para o que não é e, como tal, é preciso não ser,
esta via afirmo-te que é uma trilha inteiramente insondável;
pois nem ao menos se conheceria o não ente, pois não é
realizável , nem tampouco se o diria:

Momento cult ... POEMA DE PARMÊNIDES (I-VIII) - ACERCA DA NATUREZA I

I

Éguas que me levam, a quanto lhes alcança o ímpeto, caval-
gavam,quando numes levaram-me a adentrar uma via loquaz,
que leva por toda cidade quem sabe à luz; por ela
era levado; pois por ela, mui hábeis éguas me levavam
puxando o carro, mas eram moças que dirigiam o caminho.
O eixo, porém, nos meões, impelia um toque de flauta
incandescendo (pois, de ambos os lados, duas rodas
giravam comprimindo-os) porquanto as filhas do sol
fustigassem a prosseguir e abandonar os domínios da Noite,
para a luz, arrancando da cabeça, com as mãos, os véus.
Lá ficam as portas dos caminhos da Noite e do Dia,
pórtico e umbral de pedra as mantém de ambos os lados,
mas, em grandiosos batentes, moldam-se elas, etéreas,
cujas chaves alternantes quem possui é Justiça rigorosa.
As moças, seduzindo com suaves palavras, persuadiram-na,
atenciosamente, a que lhes retirasse rapidamente
o ferrolho trancado das portas; estas, então, fizeram com que
o imenso vão dos batentes se escancarasse girando
os eixos de bronze alternadamente nos cilindros encaixados
com cavilhas e ferrolhos; as moças, então, pela via aberta
através das portas, mantém o carro e os cavalos em frente.
E a deusa, com boa vontade, acolheu-me, e em sua mão
minha mão direita tomou, desta maneira proferiu a palavra e me saudou:
Ó jovem acompanhado por aurigas imortais,
que, com cavalos, te levam ao alcance de nossa morada,
Salve! Porque nenhuma Partida ruim te enviou a trilhar este
caminho, à medida que é um caminho apartado dos homens,
mas sim Norma e Justiça. Mas é preciso que de tudo te
instruas: tanto do intrépido coração da Verdade persuasiva
quanto das opiniões de mortais em que não há fé verdadeira.
Contudo, também isto aprenderás: como as opiniões
precisavam manifestamente ser, elas que atravessam tudo através de tudo.

domingo, 18 de maio de 2008

Pensando bem?

Qual a coisa mais importante da vida?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Filosofia e Sociologia: APROVADO - PLC 04/08 do Dep. Ribamar Alves (PSB/MA)

 
 
 
 

A Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado aprovou nesta terça-feira (6/5) o PLC 4/08, que altera dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), para incluir no currículo do Ensino Médio as disciplinas de Filosofia e Sociologia como obrigatórias.

Por unanimidade, na Comissão de Educação do Senado Federal, o PLC 04/08 foi aprovado e contou com apoio de todos os senadores. Com elevado quorum e com pronunciamentos firmes e decisivos do senador Cristóvam Buarque que presidiu a sessão e sobretudo de Ideli Salvatti, lider do PT. O senador Marco Maciel, embora propenso inicialmente a incluir a psicologia, acabou concordando com os argumentos do Senador Valter Pereira (PMDB/MS) que fez um claro relato de defesa, importantíssimo para a sua aprovação.

Especialistas defendem que a aprovação do projeto será a maior revolução do Ensino Médio na história do Brasil, pela dimensão que a presença dessas duas disciplinas terá na estrutura curricular em nosso país. Serão 25 mil escolas que ensinarão Sociologia e Filosofia para pelo menos 10 milhões de jovens, que poderão finalmente ter acesso a um saber especial que lhes possibilitará uma melhoria substancial de sua capacidade de reflexão (Filosofia) e análise (Sociologia) da realidade que esse jovem está inserido.

Os fortes argumentos para a aprovação do PLC ("que se arrasta na Câmara e no Senado há anos" faria justiça "é, por assim dizer, uma questão de honra") a uma longa luta, de décadas, sendo intenso nos últimos onze anos, quando se buscou mudar a LDB de forma a tornar obrigatório o ensino das disciplinas. Também essa aprovação faz justiça ao ensino e à educação nacional, pois foi lembrado pelo senador Valter Pereira (PMDB/MS), que a ditadura militar, ideologicamente retirou a obrigatoriedade do ensino de ambas as disciplinas em 1971. Na ocasião, foram substituídas pelas disciplinas de Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil. Desde então, teve início a luta de educadores, estudiosos e entidades de classe de trabalhadores da educação para a volta das duas matérias indispensáveis à formação integral dos jovens brasileiros.

A Comissão de Educação aprovou ainda por unanimidade um requerimento de urgência sugerido pelo Senador Flávio Arns (PT/PR) e imediatamente encaminhado pelo relator Valter Pereira para que o PLC 04/08 seja discutido logo, se possível ainda hoje, no plenário do Senado. Se não ocorrer ainda hoje, terça-feira, dia 6 de maio de 2008, um dia histórico para todos nós, - há quatro medidas provisórias obstruindo a pauta -, poderá ocorrer amanhã ou na próxima semana.

Há uma esperança de um acordo de líderes vir desobstruir a pauta. De qualquer forma foi uma grande vitória para todos os professores e instituições que defendem a qualificação do Ensino Médio e uma elevação da consciência de nossa juventude.

Hoje, o contexto é completamente distinto, tendo em vista que em mais de quinze Estados brasileiros os currículos do ensino médio já incluem as disciplinas de Filosofia e Sociologia.

O Ministério da Educação homologou a Resolução nº. 4, de 2006, da Câmara Básica do Conselho Nacional de Educação, que estabelece prazo para os sistemas de ensino fixar "as medidas necessárias para a inclusão das disciplinas de Filosofia e Sociologia no currículo das escolas de ensino médio".

A luta agora será travada no plenário do Senado, no sentido de que nenhum senador apresente qualquer emenda ao PLC 04/08, pois se isso acontecer ele voltará à Câmara e poderá atrasar mais uns três ou mais anos. Por isso, devemos estar atentos.

 

terça-feira, 13 de maio de 2008

Momento cult ....Mário Quintana

Amor não é se envolver com a pessoa perfeita,
aquela dos nossos sonhos.
Não existem príncipes nem princesas.
Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas
sabendo também de seus defeitos.
O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que
podemos ser.

Mário Quintana

domingo, 11 de maio de 2008

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Momento Cult .... Morte e vida Severina


 

 
 

 
 

 
 

 
 

 
 

 
 

 
 

  

Morte e vida Severina

(Auto de Natal Pernambucano)

1954-1955



O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUE MATEI NÃO!"

— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
— Onde a Caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
— E o que guardava a emboscada,
irmão das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
— E o que havia ele feito,
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
— Ter um hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.
— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadros,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente de chumbo
que tem guardada?
— Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.
— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
— Vou eu, que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.
— Mais sorte tem o defunto,
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.
— Toritama não cai longe,
irmão das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
— Partamos enquanto é noite,
irmão das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.

O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR PORQUE SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU COM O VERÃO

— Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas;
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
todas formando um rosário
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha;
entre uma conta e outra conta,
entre uma a outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho de saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas não vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas;
ouço somente à distância
o que parece cantoria.
Será novena de santo,
será algum mês-de-Maria;
quem sabe até se uma festa
ou uma dança não seria?

NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS CANTADORES

Finado Severino,
   quando passares em Jordão
   e o demônios te atalharem
   perguntando o que é que levas...

Dize que levas cera,
   capuz e cordão
   mais a Virgem da Conceição.

Finado Severino,
   etc. ...

— Dize que levas somente
   coisas de não:
   fome, sede, privação.
Finado Severino,
   etc. ...

— Dize que coisas de não,
   ocas, leves:
   como o caixão, que ainda deves.
Uma excelência
   dizendo que a hora é hora.

Ajunta os carregadores
   que o corpo quer ir embora.

Duas excelências...
— ... dizendo é a hora da plantação.
Ajunta os carregadores...
— ... que a terra vai colher a mão.

CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.

— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas porque
parar aqui eu não podia
e como o Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou será que aqui cortando
agora minha descida
já não poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(será que a água destes poços
é toda aqui consumida
pelas roças, pelos bichos,
pelo sol com suas línguas?
será que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto de água no antigo
sobrará nos poços ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo há para que decida;
primeiro é preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se não é rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poderá me dar notícia.

DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ

— Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
— Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há;
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
— Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar;
diga-me ainda, compadre,
que mais fazia por lá?
— Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar:
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
— Esses roçados o banco
já não quer financiar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?
— Melhor do que eu ninguém
sei combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.
— Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá;
diga-me ainda, compadre;
que mais fazia por lá?
— Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavradas
pela seca faca solar.
— Isto aqui não é Vitória
nem é Glória do Goitá;
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
— Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear:
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.
— Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Em qualquer das cinco tachas
de um bangüê sei cozinhar;
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.
— Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já;
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?
— Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá:
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
— Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.
— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
— Essa vida por aqui
é coisa familiar;
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
— Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar;
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
— Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
— Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
— E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
— É, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.
— E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
— De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar;
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
— E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM

— Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm a água vitalícia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira.
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina;
somente ali à distância
aquele bueiro de usina;
somente naquela várzea
um bangüê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco na verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE

— Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça;
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta;
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.
Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia;
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre, com
a mesma chama mortiça.
Agora é que compreendo
porque em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia;
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.

CHEGANDO AO RECIFE, O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS

— O dia de hoje está difícil;
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço;
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
— Pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.
Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.
— É que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar:
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.
Mas este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de alguém.
— Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde não pára o vaivém?
Pode ser uma estação
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.
— Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos banguezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros);
bairro também dos industriais,
dos membros das associações patronais
e dos que foram mais horizontais
nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.
— Só pedi que me mandassem
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.
— Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas;
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se liberaram jamais.
— Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras também as gorjetas.
— Gorjetas aqui, também,
só dá mesmo a gente rica,
em cujo bairro não se pode
trabalhar em mangas de camisa;
onde se exige quépi
e farda engomada e limpa.
— Mas não foi pelas gorjetas,
não, que vim pedir remoção:
é porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro;
aqui ao menos há mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.
— E que disse o Administrador,
se é que te deu ouvido?
— Que quando apareça a ocasião
atenderá meu pedido.
— E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?
— No de Casa Amarela me deixou
mas me mudou de arrabalde.
— E onde vais trabalhar agora,
qual o subúrbio que te cabe?
— Passo para o dos industriários,
que é também o dos ferroviários,
de todos os rodoviários
e praças-de-pré dos comerciários.
— Passas para o dos operários,
deixas o dos pobres vários;
melhor: não são tão contagiosos
e são muito menos numerosos.
— É, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.
— É a gente sem instituto,
gente de braços devolutos;
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.
— É a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.
— É a gente retirante
que vem do Sertão de longe.
— Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.
— E que então, ao chegar,
não têm mais o que esperar.
— Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.
— Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.
— E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.
— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.
— Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
— O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água;
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.
— E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.
— Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia;
morre gente que nem vivia.
— E esse povo lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitérios esperando.
— Não é viagem o que fazem,
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.

O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

— Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).

APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO

— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado;
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega ao abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
— Severino, retirante,
pois não sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?
— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alaga
e devasta a terra inteira.
— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais,
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.
— Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.
— E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.
— E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.
— E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.
— E este rio de água cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

— Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
— Minha pobreza tal é
que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos irmãos,
de leite, de lama, de ar.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Carro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.

— Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.
— Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
— Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
— Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.

— Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
— Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
— Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
— Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
— Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
— Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
— Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
— Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.

FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS

— Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
o anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris;
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.
— Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui, vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.

FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES ETC.

— De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE EM NADA

— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
 

FIM DE "MORTE E VIDA SEVERINA"
 

  

 

  

   

 
 

25/05/2006