domingo, 1 de junho de 2008

Filosofia: vida e trabalho

O que a filosofia tem a ver com seu trabalho?
Esse texto, nascido de uma questão colocada em sala de aula, tem como objetivos:
1) Relacionar e discutir co-relações da filosofia com vida pessoal e profissional.
2) Explicar como a filosofia influência a vida nas organizações humanas hoje, a partir das exigências que são feitas aos trabalhadores.
Filha da filosofia, a ética renasceu no vocabulário da mídia e ganhou contornos de modernidade. Nesta medida, é atualíssimo discutir (e praticar?) os princípios éticos nas relações pessoais, profissionais e nos negócios. Nesse contexto, algumas expressões confundem-se: cidadania, ética, transparência, responsabilidade social e sustentabilidade.
Filosofia, aqui é abordada a partir de uma definição de Platão (427-347 a.C): "A filosofia começa com a perplexidade", o que, segundo nossa percepção é muito apropriado para os dias de hoje e "filosofia" é o uso do saber em proveito do homem".
Ética aqui é abordada como área da filosofia que estuda o comportamento humano. A palavra ética origina-se do termo grego ethos, que significa "modo de ser", "caráter", "costume", "comportamento". De fato, a ética é o estudo desses aspectos do ser humano: por um lado, procurando descobrir o que está por trás do nosso modo de ser e de agir. Por outro, procurando estabelecer as maneiras mais convenientes de sermos e agirmos. Assim, pode-se dizer que a ética trata do que é "bom" e do que é "mau" para nós.
Bom e mau, ou melhor, bem e mal, entretanto, são valores que não apresentam, para o ser humano, um caráter absoluto. Ao longo dos tempos, nas mais diversas civilizações, várias interpretações serão dadas a essas duas noções. A ética acompanha esse desenvolvimento histórico, para que isso sirva de base para uma reflexão sobre como ser ético no tempo presente.
O que chama a atenção é a fundamentação dos por quês, iniciada há mais de três mil anos com Confúcio, Lao Tzé e Sun Tzu (se considerarmos a filosofia oriental) ou 2.500 anos, se considerarmos a filosofia ocidental, iniciada com Sócrates (470-399 a.C), cujo pensamento nos chegou através de Platão. Esse período de 500 anos, historicamente é curto, em termos de evolução.
As ciências hoje conhecidas e praticadas têm sua origem na filosofia. No princípio, não havia separação formal e algumas mentes privilegiadas começaram a perceber o universo, o ar, a água, o fogo, a terra, os átomos, a energia, a mente, o corpo e o coração, a vida, os homens, as mulheres, a vida em sociedade, as crenças, a organização social, as práticas e os costumes da vida em sociedade.
Cabe perguntar: o que aconteceu que fica em nós a percepção de que aparentemente o mundo perdeu o rumo? Uma resposta simples, mas possível: deixamos de pensar.
Segundo o pensador peregrino contemporâneo Bstam-dzin-rgya-mtsho (1935), mundialmente conhecido como Dalai Lama XIV, "Apesar de todo o progresso material ocorrido no século passado e no atual, ainda experimentamos sofrimento, especialmente no que se refere ao bem-estar mental. Na verdade, o complexo meio de vida criado pela modernização e globalização está gerando novos problemas e novas causas de perturbação mental".
Esse mesmo pensador refere-se aos ensinamentos sobre as quatro Nobres Verdades, descritas por Xaquiamuni Buda (cerca do séc.VII a.C.):
1a - A vida envolve sofrimento.
2a - O sofrimento é causado, não acontece por acaso.
3a - Podemos descobrir a causa e romper a cadeia causal para impedir o sofrimento.
4a - Devemos praticar para alcançar o fim explicado na terceira verdade.
Nesse contexto explica-se o sofrimento como: "o apego que leva ao renascimento, conectado à alegria e à ganância, continuamente encontrando deleite e prazer ora aqui ora ali. É o apego por satisfações sensuais, apego à existência e apego à não-existência".
Finalmente, "para podermos verdadeiramente entender a cessação do sofrimento, precisamos primeiro reconhecer ao que origina nossas aflições mentais e emocionais e, então, aprender a discernir que estados mentais agem como antídotos diretos sobre elas".
Antonio Carlos Olivieri, escritor e jornalista escreveu que para Aristóteles (384-322 a.C), todas as atividades humanas aspiram a algum bem, dentre os quais o maior é a felicidade. Segundo esse filósofo, entretanto, a felicidade não consiste em prazeres ou riquezas. Aristóteles considerava que o pensar é aquilo que mais caracteriza o homem, concluindo daí que a felicidade consiste numa atividade da alma que esteja de acordo com a razão.
Depois disso, vem os filósofos hedonistas (do grego "hedoné" = "prazer"), segundo os quais, que acreditavam que o bem se encontra no prazer. No entanto, convém esclarecer que o principal representante do hedonismo grego, no século três a.C., o filósofo Epicuro, considerava que os prazeres do corpo são causa de ansiedade e sofrimento. Segundo ele, para a alma permanecer imperturbável, é preciso desprezar os prazeres materiais privilegiando-se os prazeres espirituais.
Genericamente, pode-se dizer que a nossa civilização contemporânea é hedonista, pois identifica a felicidade com o prazer, obtido principalmente pela aquisição de bens de consumo: ter uma bela casa, carro, boas roupas, boa comida, múltiplas experiências sexuais sem compromisso etc. E, também, na dificuldade de suportar qualquer desconforto: doenças, problemas nos relacionamentos pessoais, o fato de a morte ser inevitável etc.
Aparentemente, os apressados e os incautos podem concluir que nos encontramos "num beco sem saída". Não é bem assim. Não há nada de errado na aparente contradição dentre mente e corpo. A dinâmica do mundo material é resultante de forças e energias contrárias, assim, o desejo básico por felicidade, paz e prazer, e o desejo igualmente básico de superar a dor e sofrimento existem naturalmente em todos nós. Tendo em mente que nos realizamos através do trabalho, cada um de nós quer, pode, tem como objetivo e direito levar uma vida feliz e tranqüila e viver num mundo feliz.
Precisamos nos relacionar com as contradições e aprendermos a utilizá-las positiva e construtivamente, não nascemos sabendo isso. A filosofia, desde que incorporada ao patrimônio humano, ao longo desses 3 mil anos está nos ajudando a aprender.
Para concluir, cito uma passagem da obra, "Iluminando o Caminho" do Dalai Lama, ed. Fundamento: "É importante compreender com clareza e convencer-se de que emoções como ódio e ganância são forças interiores destrutivas que podemos reduzir e superar. E que pontos de vista basicamente saudáveis e éticos evitam o surgimento de muitas emoções e pensamentos negativos".
Num contexto amplo, todas as partes do mundo efetivamente tornaram-se parte de nós mesmos.

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